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quinta-feira, abril 26, 2007

O anão que esconde os movimentos do gigante

Num gigante gasoso, coberto por uma espessa camada de nuvens, as imagens vão mostrar sobretudo a dinâmica das nuvens, não permitindo inferir com exactidão o período de rotação do interior do planeta. Os gigantes gasosos possuem no entanto campos magnéticos relativamente poderosos, e fenómenos relacionados com esses campos magnéticos produzem emissões esporádicas e periódicas de ondas rádio. Em planetas como Júpiter, Úrano e Neptuno a periodicidade dessas emissões é usada como indicador do período de rotação interno desses planetas. Em Saturno as Voyager descobriram nos anos 1980 emissões rádio muito intensas, com comprimentos de onda da ordem do quilómetro, que na altura apresentavam uma modulação de 10 horas, 39 minutos, e 24 ± 7 segundos, valor que passou a ser aceite como o período de rotação de Saturno. Só que as sondas espaciais Ulysses e a Cassini verificaram depois que este período apresentava variações da ordem de 1% em escalas de tempo de alguns anos. Isto levanta um problema, pois a gigantesca inércia do planeta não permitiria variações desta ordem em intervalos de tempo tão curtos. É aí que entra a influência daquela lua pequenina que se pode ver nesta imagem. [... ler mais]

Aquela coisa que parece insignificante face a Saturno, é Encélado, um cliente antigo neste blog, que dedicou já várias contribuições às suas famosas listras de tigre, e aos seus famosos géiseres que expelem gelo e vapor de água em quantidades significativas. Para refrescar a memória aos mais esquecidos, ou para elucidar os novos leitores, as contribuições anteriores podem ser consultadas aqui e aqui.

O inesperado efeito de Encélado nas nossas determinações da duração do dia em Saturno é explicado por Gurnett e colegas num artigo recente na Science (ref1). Numa tradução livre do resumo do artigo de Gurnett e colegas:

Mostramos que o plasma e os campos magnéticos das regiões internas do disco de plasma de Saturno possuem uma rotação em sincronia com o período de modulação da emissão rádio quilométrica de Saturno, que varia no tempo. Esta relação sugere que a modulação no rádio tem as suas origens na região interior do disco de plasma, muito provavelmente a partir de uma instabilidade convectiva gerada centrifugamente e um afluxo de plasma para o exterior que desliza lentamente em fase relativamente ao período de rotação interna de Saturno. A taxa deste deslizamento é determinada pelo acoplamento electrodinâmico do disco de plasma de Saturno e pela força de atrito exercida pela sua interação com o toro de gás neutro de Encélado.

Este resumo pode parecer um pouco confuso, mas o corolário é simples: as modulações da emissão de rádio provêm de um anel exterior de plasma , que orbita em torno de Saturno, e cujo período de rotação é afectado pelo gás emitido por Encélado. Para aqueles que pretendam compreender melhor a coisa, é preciso fazer uma pequena incursão pela física de plasmas. Não se preocupem, vou tentar fazer isto da forma menos dolorosa possível e sem recurso a equações. Se preferirem podem ir logo para a última frase do último parágrafo.

Como referi no início, Saturno tem um campo magnético, que se assume estar perfeitamente alinhado com o eixo de rotação, ou seja os pólos norte e sul definidos pela rotação do planeta são também os pólos magnéticos. Para lá dos famosos anéis, Saturno possui ainda aquilo que se chama um anel interior de plasma. Um plasma é um gás electrificado, ou seja formado por partículas com carga eléctrica não nula, electrões e iões. Na presença de um campo magnético, as partículas electrificadas são obrigadas a espiralar em torno das linhas de de força desse campo magnético, pelo que estão de certa forma confinadas e seguem as movimentações do campo magnético. A velocidade de rotação do plasma é por sua vez suficientemente elevada para que a força centrífuga, seja bastante superior à atracção gravítica do planeta concentrando assim o plasma num disco na região equatorial de Saturno.

Segundo o que Gurnett e colegas discutem no seu artigo, a presença de Encélado baralha bastante as coisas, no que se refere à periodicidade das movimentaçs deste anel de plasma. O material expelido por Encélado é originalmente neutro, ou seja encontra-se sob a forma de átomos e moléculas, e forma um toro (algo com a forma de um donut) correspondente à órbita dessa lua. O material neutro não é afectado pelos campos magnéticos, só que o gás no toro vai sendo lentamente ionizado, e passa então a ficar sob a acção dos campos magnéticos ligados a Saturno. As coisas estão esquematizadas na imagem abaixo, que mostra uma visão para um observador acima do pólo norte de Saturno:

A amarelo mostram-se os trajectos correspondentes ao fluir do plasma. A passagem do fluxo de plasma longo do toro de Encélado significa um progressivo aumento da densidade: o material recém ionizado é "apanhado" e arrastado no fluir do material pré-existente. Como consequência dessa variação de densidade formam-se e mantêm-se duas células convectivas no disco de plasma, com padrões de circulação organizados. O processo em si é algo complicado, e sem fórmulas terei que ficar por aqui. Falo nisso apenas porque a imagem que ilustra o processo é particularmente bonita.

O afluxo contínuo de novo material proveniente de Encélado pesa de tal forma no campo magnético que o atrasa em relação ao movimento de rotação do planeta. Ou seja, a entrada regular de novo plasma no sistema provoca um desfasamento entre as propriedades de rotação do disco de plasma e do planeta. Como a expulsão de material por Encélado não é constante, este modelo explica as irregularidades nos períodos da emissão quilométrica de Saturno. Claro que esta não é necessariamente a palavra final nesta questão, mas é bastante interessante. A moral da história é que o período de rotação do interior de Saturno permanece um mistério.

Ficha técnica
Imagem de Encélado retirada desta página da NASA.

Referências
(ref1) D. A. Gurnett, A. M. Persoon, W. S. Kurth, J. B. Groene, T. F. Averkamp, M. K. Dougherty, and D. J. Southwood (2007). The Variable Rotation Period of the Inner Region of Saturn's Plasma Disk. Science 316, 442. Laço DOI.

terça-feira, abril 03, 2007

Um favo no Pólo Norte

Estas são imagens de Saturno obtidas pelos intrumentos da Cassini, a 21 de Junho de 2004, com filtros que deixam passar luz em três intervalos de comprimentos de onda distintos, todos na banda do infravermelho. Estas imagens mostram bem que consoante a zona do espectro luminoso que se observa o aspecto de Saturno é muito diferente. Na imagem obtida a 1.3 micrómetros (milésimos de milímetro) quer Saturno, quer os seus aneis reflectem a luz de forma intensa. A 2.4 micrómetros, os anéis continuam a ser fortemente reflectores mas o metano na atmosfera de Saturno absorve quase toda a luz neste comprimento de onda. Ora há uma diferença óbvia entre estes comprimentos de onda e o seguinte, os 5.1 micrómetros. Reparem que nos outros dois se veêm efeitos de sombra devidos à fonte de energia luminosa, neste caso o Sol. A 5.1 micrómetros a fonte de radiação é o próprio Saturno, ou mais exactamente o brilho térmico proveniente do seu interior. Aqui observa-se um pouco inverso do que se via a 2.4 micrómetros. A 5.1 micrómetros os anéis, compostos por gelo, absorvem a radiação e são escuros, enquanto Saturno é muito brilhante, com uma luminosidade que depende dos padrões de nuvens na sua atmosfera. Os 5.1 micrómetros são assim particularmente adequados quando se querem observar coisas em zonas, como o pólo norte de Saturno, que se encontram à sombra do longo inverno saturniano. Os cientistas fizeram isso e observaram algo que se conhecia desde os tempos das Voyager no inínio dos anos 1980, mas não deixa de ser impressionante ver que ainda está lá. Esperava ver isto há já algum tempo e a Cassini não me desapontou: Saturno tem um hexágono quase perfeito no pólo norte. [... ler mais]

Antes de mostrar a imagem do pólo não resisto a mostrar o belíssimo panorama que se obtém quando se combinam as três imagens acima atribuindo a uma intensidade no vermelho, a outra no verde, e à outra no azul. As cores são falsas mas o efeito é deslumbrante:

Como eu referi, as Voyager tinham observado o pólo norte de Saturno, mas de uma perspectiva pouco favorável, de esguelha, e não em comprimentos de onda sensíveis ao brilho térmico do planeta. Vejamos então a primeira a capturar todo o pólo norte com uma perspectiva adequada, obtida em 2006, no dia 29 de Outubro. Ei-la, é de facto surpreendente:

A imagem foi processada para aumentar o contraste. O que estamos a ver é o brilho térmico do interior do planeta e a forma como é afectado pela camada de nuvens da atmosfera de Saturno. As nuvens mais profundas aparecem mais escuras na imagem pois bloqueiam a radiação neste comprimento de onda (5 micrómetros). O hexágono é por isso uma clareira nas nuvens de superfície, que se estende na atmosfera pelo menos 75 quilómetros abaixo das nuvens mais altas. As imagens obtidas ao longo de vários dias mostram que se trata de algo estacionário e com raízes profundas na atmosfera do planeta. Eu tinha falado anteriormente do olho tempestuoso de Saturno no pólo sul, mas esta coisa é ainda mais estranha.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto tiradas desta e desta páginas da NASA.

quarta-feira, março 07, 2007

Ó Titã, hoje és nevoeiro...

"Vendo um Sol que se põe em Titã", é este o tema da nova passagem da Sonda espacial Cassini pela gelada lua de Saturno da qual eu já falei aqui por tantas vezes. A passagem, com o número 26, vai ocorrer no dia 10 de Março de 2007, e podemos antecipar coisas interessantes. A sonda vai obter imagens da região logo acima do equador de Titã, fazer mapas da temperatura à superfície, e estudar os movimentos das nuvens. A Cassini irá também recolher material do topo da atmosfera de Titã para determinar a sua constituição. [... ler mais]

Esta é uma boa ocasião para mostrar uma espectacular panorâmica obtida através dessa atmosfera numa passagem anterior, a 26 de Dezembro de 2006. Nesta imagem a Cassini espreita o pólo Sul de Saturno, iluminado pelo Sol, pra lá da borda brumosa de Titã.

É uma imagem muito bonita. Foi obtida combinando fotografias tiradas com os filtros azul, verde e vermelho, pelo que é muito próxima das cores naturais, isto é, daquilo que seria visto pelos nossos olhos sem o auxílio de instrumentos.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto retirados desta e desta páginas da NASA.

quinta-feira, março 01, 2007

Uma ilha extraterrestre

Os lagos que se descobrem em Titã são cada vez maiores. A Cassini efectuou um sobrevôo a Titã em 22 de Fevereiro de 2007, indo bastante perto do pólo norte dessa lua de Saturno. Como esperado, observou mais lagos. Estes são verdadeiros gigantes e possuem mesmo ilhas. Esta imagem, cujo aspecto é já algo familiar, obtida pelo istrumento de radar mostra uma ilha mesmo no meio de um dos maiores lagos vistos até agora em Titã. O centro desta imagem está a cerca de 79 graus norte e permite confirmar que quanto mais próximo do pólo maiores estas coisas ficam. Já agora a imagem está orientada com o norte à esquerda.[... ler mais]

Para avaliarem as dimensões desta extensão de metano líquido, basta dizer que a ilha que se vê no meio do lago tem 90 km por 150 km, ou seja é tão comprida como o Algarve mas tem cerca do dobro da largura. É mais ou menos do tamanho da Ilha Grande do Havai. Dunas, lagos, ilhas, Titã tem tudo para ser um destino turístico de eleição.

Ficha técnica
Imagem e inspiração para o texto a partir desta página da NASA.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Nas dunas, roendo maçãs

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Mais uma vez volto a Titã com acompanhamento musical dos GNR, ao som do tema Dunas. Como certamente adivinharam, a NASA lançou mais uma imagem dos campos de dunas de Titã, obtida pelo radar da Cassini a 7 de Setembro de 2006. Esta é a panorâmica completa, e merece ser vista em todo o seu esplendor. [... ler mais]

Para apreciar a imagem em maior detalhe eu virei-a por forma a que o cimo correspondesse ao este em Titã, pelo que as dunas correm de este para oeste. Estas dunas longitudinais, descobertas há cerca de dois anos, em Fevereiro de 2005, são a característica dominante das regiões equatoriais de Titã. As dunas têm de 1 a 2 km de largura, estão espaçadas entre si de 1 a 2 km, têm cerca de 100 m de altura e um comprimento de 10 a 100 km. Na figura veêm-se também algumas regiões mais brilhantes, que correspondem a relevos de maior altitude. As dunas titanianas, formadas por gelo sujo e não por silicatos como as da Terra, curvam em torno destes relevos, seguindo o padrão dos ventos dominantes. Notem ainda a fantástica cratera de impacto no cimo da imagem, com cerca de 30 km de diâmetro.

Ficha técnica
Imagem e inspiração para o texto retiradas desta página da NASA.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Ocultação estelar

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Já que estou com a mão na massa, no que se refere a notícias de Titã, aproveito para mostrar outra das imagens nas páginas da NASA. Trata-se de uma visão artística de um efeito peculiar da existência de uma atmosfera. Quando uma estrela é ocultada por um objecto mais próximo da Terra, a luminosidade total que é medida sofre uma diminuição (ignorando outros efeitos como a variação na luz emitida ou reflectida pelo objecto que oculta a estrela). Num objecto sem atmosfera o que temos é transição abrupta de um patamar de luninosidade para um patamar abaixo quando se inicia a ocultação, seguida de uma transição abrupta para o valor inicial de luminosidade inicial quando a ocultação termina. Uma ocultação por um corpo como Titã, com uma atmosfera bastante densa, é muito diferente. [... ler mais]

A linha branca na imagem acima mostra o que sucede numa ocultação por Titã. Em primeiro lugar a transição não é abrupta mas cai suavemente enquanto a estrela passa por trás da atmosfera da lua. A forma como se dá essa queda na luminosidade pode ser utilizada pelos cientistas como uma fonte de informação sobre a atmosfera de Titã. Há ainda um outro efeito, o pico na luminosidade a meio da curva de brilho. Este "clarão" acontece porque a atmosfera de Titã actua como uma espécie de lente, focando a luz da estrela e levando-a a convergir num ponto do outro lado da lua.

Ficha técnica
Imagem e inspiração para o texto retiradas desta página da NASA.

As nuvens de Titã

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Há quase um mês que não falava aqui de Titã, a lua de Saturno famosa pelos seus lagos e atmosfera densa. Essa é uma falha fácil de corrigir, basta um pequeno passeio pelas páginas da sonda espacial CASSINI no sítio da NASA, e pronto, todas as novidades titanianas do último mês ao alcance de um toque no rato. Como de costume, para além de resultados interessantes, há imagens bonitas, como a que se mostra aqui ao lado, obtida pelo espectrómetro de mapeamento no visível e no infravermelho, um instrumento mais conhecido pela sigla VIMS. Esta é uma imagem composta obtida pela CASSINI a uma distância de 90,000 km de Titã em 29 de Dezembro de 2006. O detalhe mais marcante desta imagem é o enorme sistema de nuvens que cobre o pólo norte de Titã. É um sistema de nuvens enorme que se estende do pólo até uma latitude de cerca de 62 graus norte, e cobre todas as longitudes. [... ler mais]

Não se trata de algo inesperado, os modelos científicos da circulação atmosférica em Titã previam algo semelhante, mas nunca tinha sido visto com este tipo de detalhe. Além disso é uma imagem claramente actual, pois este sistema de nuvens encontra-se no intervalo de latitudes onde se observam os famosos lagos de metano de Titã. É possível que estas nuvens sejam a fonte dos líquidos que enchem os lagos que se observam na superfície desta lua de Saturno.

A imagem é muito bonita, mas convém dizer que se por acaso estivéssemos em órbita de Titã e olhássemos para lá os nossos olhos não veriam nada disto, pelo menos sem auxílio de instrumentos. As cores da imagem são artificiais, a figura foi obtida combinando fotografias em três comprimentos de onda no infravermelho próximo, a 2, 2.7 e 5 micrómetros, aos quais foram atribuídos intensidades no azul, verde, e vermelho, respectivamente.

Ficha técnica

Imagens e inspiração para o texto retiradas desta página da NASA.

domingo, janeiro 07, 2007

Os muitos lagos de Titã

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Aquando da chegada da Cassini ao sistema saturniano, e após a descida da sonda Huygens, uma das coisas que me desapontaram foi a inexistência de mares em Titã. Nos sobrevôos que a Cassini fez a Titã, nos meses que se seguiram à descida da Huygens, continuei com esperança de ver pelo menos um rio, ou um pequeno lago. A espera durou até 22 de Julho de 2006, quando apareceram as primeiras imagens de algo que aparentava ser uma área coberta por líquido. A imagem acima mostra algumas dessas regiões, em cores artificiais, pois a imagem é construída a partir de dados de radar. As zonas escuras-azuladas correspondem a depressões com superfícies lisas, têm dimensões que podem chegar a algumas dezenas de km, são razoavelmente abundantes e foram imediamente identificadas como lagos. Tudo indica que essa identificação estava correcta. A descoberta acabou de passar pelo processo de arbitragem e revisão científica, pelo que agora é oficial: Titã tem mesmo lagos. [... ler mais]

O artigo que discute a descoberta é da autoria de de E. R. Stofan e colegas, e saiu na Nature (ref1) desta semana. Numa tradução livre do resumo:
Propôs-se durante muito tempo que a superfície de Titã, a lua de Saturno envolta em bruma, teria oceanos ou lagos, com base na estabilidade do metano líquido na sua superfície. As primeiras imagens de radar ou no visível não encontraram evidência de um oceano, embora tivesse sido encontrada evidência abundante de escoamento de líquidos na superfície. Fornecemos aqui evidência definitiva da presença de lagos na superfície de Titã, obtida durante o sobrevôo de radar de Titã pela Cassini em 22 de Julho de 2006 (T16). Imagens de radar nas proximadades do pólo acima de 70° norte mostram mais de 75 regiões circulares ou irregulares escuras ao radar, numa região em que se eesperam que metano e etano líquidos sejam abundantes e estáveis na superfície. As regiões escuras ao radar são interpretadas como lagos com base na sua baixa reflectividade ao radar e semelhança morfológica com lagos, incluindo canais associados e localização em depressões topográficas. Alguns dos lagos nãoechem completamente as depressões onde repousam, e depressões secas estão aparentemente presentes. Interpretamos isto como indicação de que os lagos estão presentes num número de estados, incluindo parcialmente secos e cheios de líquido. Estes lagos do hemisfério norte constituem a evidência mais forte até agora de que um ciclo hidrológico com um líquido condensável está activo na superfície e atmosfera de Titã, no decurso do qual os lagos enchem através de chuva e/ou intersecção com um lençol freático de metano líquido abaixo da superfície.

Dunas, montanhas, vulcões de gelo, rios, lagos, sobretudo lagos. Um mundo frio mas fabuloso.

Ficha técnica
A imagem dos lagos, que fez a capa da Nature foi retirada desta página da NASA.

Referências
(ref1)E. R. Stofan et al (2007). The lakes of Titan. Nature 445, 61-64. Laço DOI.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Um vulcão de gelo

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Esta é mais uma imagem de Titã obtida pelos instrumentos a bordo da sonda espacial Cassini. Trata-se de uma imagem antiga, tirada pelo instrumento de radar em Fevereiro de 2005. A característica mais saliente desta imagem é uma cratera circular, com qualquer coisa como 10 km de diâmetro. Acima dessa cratera vê-se uma região algo esbatida, em forma de leque que parece ligada à cratera. Uma imagem como esta, vista por apenas um instrumento, num único comprimento de onda, nem sempre é fácil de analisar. Ao combinar dados de instrumentos diferentes os cientistas conseguem muitas vezes compreender melhor aquilo que estão a ver. Foi o que sucedeu neste caso. Quando os cientistas combinaram esta imagem de radar com imagens no infravermelho, obtidas quase dois anos depois, confirmaram as suspeitas que as imagens de radar tinham levantado. [... ler mais]

No dia 20 de Outubro de 2006 a Cassini tirou, a apenas 1100 km de Titã, a imagem que se vê na estreita faixa colorida, sobreposta à imagem de radar obtida em 2005.

Como podemos ver o "leque" contrasta claramente com o terreno circundante, e as fronteiras entre o terreno e o leque são muito abruptas. Estas características sugerem que estamos a ver um depósito de material originário da pequena estrutura circular. O que será então essa estrutura? Aqui cito um excerto de um dos comunicados de imprensa:
"Tem-se vindo a acumular evidência de que a característica circular é um vulcão", disse a Dr. Roasaly Lopes, membro da equipa de radar da Cassini no Jet Propulsion Laboratory da NASA, em Pasadena, Calif. "Apenas com os dados de radar, identificámo-la como um possível vulcão, mas a combinação de radar e infravermelho torna as coisas muito mais claras."

Vulcões gelados, algo de que se falava desde 2005 mas que parece uma possibilidade muito maior neste momento. Titã é um mundo impressionante, que está a ser revelado aos poucos. A última aproximação foi no dia 12 de Dezembro de 2006. Vejamos que novidades trará a Cassini dessa nova passagem.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto retiradas deste e deste comunicados da NASA.

Os cumes nevados de Titã

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Eis-me de volta aos resultados da aproximação da Cassini a Titã no dia 25 de Outubro de 2006. Esta é a imagem que tinha mostrado na última contribuição, com alguns acrescentos. A pequena região que se destaca ligeiramente abaixo e à esquerda do centro da imagem é o acrescento em destaque nesta contribuição. Trata-se de uma montagem de imagens obtidas pela VIMS numa aproximação a apenas 12,000 km de Titã. Essa região estava incluída na área de que falei na contribuição anterior, é aí que se situa o sistema montanhoso que referi. O que vou mostrar em seguida é uma imagem mais detalhada dessas montanhas.[... ler mais]

Eis aqui então as montanhas de Titã em todo o seu esplendor:

Erguendo-se majestosamente através da atmosfera brumosa de Titã, as cadeias de montanhas são bastante mais evidentes nesta imagem do que nas imagens que mostrei na contribuição anterior. As dimensões destes relevos são impressionantes: 150 km de extensão, 1500 metros de altitude. Tal como as montanhas da Terra as montanhas de Titã parecem possuir "neve". Pelo menos isso é o que os cientistas julgam ser os depósitos mais brilhantes que se veêm na imagem. Obviamente tratar-se-á de "neve de metano" ou um qualquer outro hidrocarboneto. Tal como se refere num dos comunicados de imprensa referente a esta descoberta:
"Estas montanhas são provavelmente duras como rocha, feitas de materiais gelados, e cobertas com vários níveis de materiais orgânicos," disse o Dr. Larry Soderblom, cientista da Cassini no U.S. Geological Survey, em Flagstaff, Ariz. Ele acrescentou: "Parecem existir camadas e mais mais camadas de várias coberturas de "tinta" orgânica em cima umas das noutras no topo de cada um dos cumes montanhosos, um pouco como pintor que aplique o fundo numa tela. Algum desta mistela orgânica cai da atmosfera como chuva, pó ou neblina no chão dos vales e no cimo das montanhas, que estão cobertas com pontos escuros que parecem ser escovados, lavados, esfregados e deslocados ao longo da superfície."

Não posso deixar de notar que o Dr. Soderblom parece um pouco obcecado com as limpezas, mas a analogia que fornece é provavelmente adequada.

Titã é um mundo desconcertante do ponto de vista geológico. Ao mesmo tempo familiar e estranho: nuvens, lagos, rios, dunas, agora montanhas e evidência de movimentos téctónicos, e mesmo neve. Só que em vez de água tem-se metano e etano, em vez de granitos e basaltos, bocados de gelo. Mas as surpresas não se esgotam aqui, na próxima contribuição falarei de algo que há muito esperava ver identificado em Titã: um vulcão gelado.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto retiradas deste e deste comunicados da NASA.

Tectónica titaniana

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No dia 12 de Dezembro a Cassini libertou mais algumas fantásticas imagens da câmera de infravemelhos, VIMS, obtidas durantes as duas aproximações mais recentes a Titã, uma no dia 9 de Outubro, a outra no dia 25 de Outubro, de 2006. Uma visão antecipada da aproximação de dia 25 Outubro tinha sido apresentada nesta contribuição, e apraz-me verificar que os resultados foram tão bons ou melhores do que o antecipado. Esta imagem foi construída combinando resultados dessas duas aproximações, uma que levou a sonda a cerca de 30,000 km deste mundo gelado, a outra que se aproximou a cerca de 12,000 km. A grande estrutura circular próxima do centro parece ser uma cratera de impacto. Abaixo e à esquerda dessa cratera encontram-se vestígios de algo muito interessante, nada mais nada menos que relevos montanhosos. [... ler mais]

As imagens que mostro aqui foram obtidas com filtros sensíveis ao infravermelho, isto é as cores são "falsas", servem para ilustrar diferenças nas propriedades das várias regiões observadas. Foram usados três filtros: 1.3 micrómetros cuja intensidade é colocada em tons de azul, 2 micrómetros em tons de verde, e 5 micrómetros a vermelho.

Eis aqui uma imagem de Titã obtida a cerca de 15,000 km de distância, de uma região que pode ser facilmente identificada na imagem acima. Notem as estrias um pouco acima do canto inferior esquerdo.

Embora eu continue com alguma dificuldade em identificar exactamente o que estou a ver, os cientistas do VIMS dizem tratar-se das cristas de um sistema de cordilheiras, que se ergueram em resultado de um tipo de actividade tectónica, talvez relacionada com o possível impacto que originou a estrutura que parece ser uma cratera. Numa outra imagem desta mesma região vê-se uma faixa brilhante sobre as montanhas.

Segundo os cientistas da Cassini estas coisas brilhantes são nuvens, que se formarão possivelmente quando metano, empurrado pelos ventos, é forçado a subir sobre as montanhas, onde arrefece e condensa.

Montanhas, nuvens, só falta mesmo neve. Ou será que não? Voltarei a estas montanhas, com mais detalhe, na próxima contribuição.

Ficha técnica
Imagens e inspiração para o texto retiradas desta e desta páginas da NASA.